domingo, fevereiro 27, 2011

Marchinha do bode preto


Todas as marchinhas carnavalescas falam do cotidiano da vida das pessoas. Pelo menos vendo as letras de todas percebe-se o olhar atento dos compositores pela vida das pessoas e as mudanças ocorridas no país.

Meu avô não foi tão longe, sua inspiração para escrever sua primeira marchinha veio de um bode que apareceu em nossa rua e provocou uma grande confusão. Principalmente para o Zé da Selma que vendia doces em frente à escola. Basta ler a letra para tomar conhecimento de toda a estória. E é desse cotidiano que trata essa marchinha tão divertida que o Velho Flávio adorava cantarolar. E ainda serviu para o bloco da nossa rua que nunca saiu.

“O bode preto da projetada

Gosta de doces e dá cabeçada

Ele foi na barraca do Zé

Comeu o doce e ainda deu olé, Béee.

O bode não tinha chifre não

Ele jogou a barraca no chão

O Zé sentou-lhe a mamona

Porque ele comeu pastel e jogou fora o caroço da azeitona

O bode tinha um topete

Comeu o doce e ainda fez bola de chiclete

O Zé ficou estupefato pegou o bode e varejou no mato"

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Estréia no grupo Especial

 
Depois da estréia da ala no Arrastão de cascadura, no ano seguinte meu irmão conseguiu levar a ala para o Arranco do Engenho de Dentro já que a escola havia subido para o grupo especial. Em 1989, o Arranco abre o desfile do Grupo 1A, atual Grupo Especial, fazendo um desfile empolgante e de alto nível, com o enredo ”Quem vai querer?”.

Meu irmão estava muito feliz com a ala e chegou até levar uma garrafa de champagne para brindar a estréia no grupo especial. Mas como era novato na escola, teve que dividir a ala com outro Presidente, que não quis fazer a fantasia na mesma costureira que a nossa e sendo assim a diferença entre a roupa vestida pelos nossos componentes e a do outro Presidente era enorme. Por esse motivo meu irmão não queria que eles viessem na frente da ala o que acabou provocando uma grande confusão. Por pouco os dois não partiram para a briga. No fim todos se misturaram e não houve divisão alguma.

A fantasia da ala chamava-se supermercados Brasil e lembrava uma sacola de compras e na cabeça havia moedas e faixas com preços. E o fato engraçado e constrangedor é que embora a fantasia estivesse realmente mais bem feita que a do outro, a nossa tinha um problema sério de acabamento no chapéu. As placas estavam se soltando do arame e muitos ficaram sem. Meu pai preocupado com isso saiu enfaixando as placas que ameaçavam descolar com fita crepe, quase que mumificando todos eles, impedindo que se entendesse o que representava o chapéu. Uma vergonha. O bom é que todos brincaram e felizmente ninguém tomou para si a primeira posição, pois nenhum dos dois tinha condições realmente de se sobressair mais que o outro. Ambos falharam e assim foi nossa estréia no grupo especial: caímos junto com a escola.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Nossa primeira ala


A primeira ala que tivemos foi através de um convite de um amigo do meu irmão que era carnavalesco do Arrastão de Cascadura. Como precisava aumentar o contingente de componentes para contar a história da atriz Zezé Mota que era o enredo da escola no ano de 1989, ele deu um figurino para que meu irmão montasse uma ala. Não tínhamos a mínina noção de como fazer. E como era uma roupa bem simples aceitamos o desafio. Quem confeccionou foi a Sonia Maria, mas todos acabaram dando a sua contribuição na montagem. Mesmo sem experiência nenhuma, mas com muita vontade conseguimos botar um bom grupo na avenida para essa estréia. Basta ver o vídeo que postei para perceber como todos se divertiram muito.

A diversão foi ainda maior porque mesmo o samba sendo muito bonito, ninguém sabia cantá-lo e só isso já era motivo suficiente para boas gargalhadas. Muito mal aprendemos o refrão e alguns componentes nem isso, como foi o caso do meu tio Odilon, que aproveitava para cantar o refrão de outro samba, substituindo a letra:

Seu talento corre mares, corre chão

É Zezé nos braços da multidão

Por:

Didi, Zezé, Mussum e Zacarias





segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Assistindo aos desfiles pela primeira vez


Cresci ouvindo histórias dos meus pais sobre os desfiles das escolas de samba que eles iam assistir todos os anos. E da alegria e euforia quando começaram a assistir de dentro da pista de desfiles depois de uma confusão nas arquibancadas que os forçou a pular para a pista. Gostaram tanto da proximidade com a escola que a partir desse ano passaram a fazer mil artimanhas para poderem ficar na pista. E eram tantas situações que passavam para realizar esse desejo que muitas vezes eu mesmo desconfiava das histórias contadas, mas finalmente quando fiz 15 anos pude comprovar a veracidade de tudo que contavam. Fui assistir pela primeira vez com eles e depois de inventar que estavam importunando minha mãe nas arquibancadas, pulamos para dentro da pista com o auxilio de um dinheirinho para os fiscais. Depois do nervosismo inicial, achando que tínhamos cometido o maior dos crimes, procuramos um lugar não tão visado assim e finalmente pude relaxar e admirar o belo espetáculo que se passava na minha frente. Fiquei maravilhado com a proximidade das pessoas fantasiadas, das alegorias, dos artistas, da decoração, enfim, tudo. Uma emoção maravilhosa. Vi pela primeira vez um desfile da minha escola, cantando “Brasil, Berço dos Imigrantes” na voz do saudoso Roberto Ribeiro. Já era dia quando o Império entrou e fiquei emocionado. Nunca vou esquecer esse dia, pois tenho certeza que foi a partir daí que o vírus do carnaval me invadiu por completo.

Resolvi que ia fazer como meus pais e assistir aos desfiles todos os anos. Na verdade combinamos eu, meu irmão e minha prima Magali. Só que para se comprar ingressos naquele tempo não era nada fácil. Era vendido nas bilheterias no maracanã e formavam-se filas imensas já na madrugada. E lá fomos nós com cadeiras de praia, biscoitos e água. Mas infelizmente a desorganização era de dar arrepios e quando o dia amanheceu já não havia fila alguma. Era uma multidão aglomerada tentando entrar no curral das bilheterias. Uma verdadeira torre de babel, um empurra empurra sem fim. As rádios anunciavam essa confusão e minha mãe partiu para lá para tentar nos resgatar. Nem mesmo a policia conseguia por ordem naquele tumulto. Meu irmão e Magali desistiram, eu me mantive firme e me aproximava cada vez mais da bilheteria, mas minha mãe conseguiu me localizar e me retirou da fila com medo de ser pisoteado já que a situação se agravava a cada instante. Uma frustração imensa, uma tristeza e um cansaço.

No ano seguinte mais uma tentativa, só que comprei arquibancadas de turistas, eram mais caras, mas também era fácil de comprar, e tinham lugar marcado. E assim fui sozinho assistir aos desfiles. Não tinha o mesmo glamour de assistir da pista, mas mesmo assim me sentia feliz por estar vendo todas as escolas. E precisava registrar aquele momento, por isso levei minha máquina xereta com vários filmes de 36 poses. Não me importava nem um pouco se a foto iria sair distante já que não havia zoom, nem flash. Técnica era o que menos importava naquele dia, somente a emoção. O importante é que eu estava feliz e queria muito registrar essa noite incrível que estava vivendo, ainda mais sozinho sem meus pais por perto. Se não fosse pela minha máquina xereta da Kodak eu não teria como comprovar que estive assistindo ao carnaval de 1980, um carnaval marcante na minha vida de adulto.



sábado, fevereiro 19, 2011

Desfilando pela primeira vez


Começamos a freqüentar a quadra do Império Serrano no ano de 1980, mas somente em 1982 resolvemos desfilar. Não tínhamos a mínima noção como proceder. Na quadra havia uma faixa com o telefone de uma presidente de ala e assim fomos para o morro do Cajueiro onde eram feitas as roupas. Acertamos o pagamento e ai foi só esperar pelo grande dia. O enredo falava sobre as transformações que as escolas de samba atravessavam e era o samba mais cantado na época, mas como a escola vinha de uma péssima colocação no ano anterior, ninguém a considerava favorita ao título. Como sempre, o Império estava desacreditado.

Quando pegamos a roupa já foi uma sensação de euforia incrível. Senti-me a pessoa mais importante do mundo porque ia fazer parte dessa festa grandiosa que é o carnaval. A alegria era enorme, e olha que a roupa nem era tão bonita. Íamos representar os africanos, uma brincadeira com a fantasia que Joãozinho trinta havia eternizado na Beija Flor.

Era uma época que as escolas não tinham horário certo para entrar na avenida nem tempo para desfilar, por isso havia atrasos imensos. O Império seria a ultima escola, mas bastante ansiosos fomos de madrugada para a concentração e sentir esse clima bem de perto. Não dava para disfarçar o nervosismo. Mesmo tendo 18 anos, fomos acompanhados pela minha mãe e minha avó por que concentração de escolas de samba era vista como local de drogados. Estávamos felizes da vida, o coração parecia saltar pela boca. Uma sensação indescritível aquele ambiente onde ficávamos admirando as fantasias das outras alas, as alegorias, tudo nos chamava atenção, mal dava para acreditar que estávamos ali fazendo parte do enredo que a escola iria contar na avenida. Um sonho que enfim ia ser realizado. Nem mesmo a demora nos deixou chateados. E foi tanta que o dia clareou, e a escola entrou na avenida com um sol de meio dia na cabeça dos componentes.

Mas nem mesmo essa situação diminuiu o entusiasmo da escola, pelo contrário, só deu mais garra para cantar o famoso samba “Bum bum paticumbum prugurundum” que além de bonito tinha um refrão que envolveu a todos. Um verdadeiro sacode que nos consagrou como campeões do carnaval. Uma vitória muito marcante para quem pisava pela primeira vez na avenida. Fomos pé quente. Uma sensação que não dá para explicar, só mesmo quem veste uma fantasia, vibra com a queima de fogos, sente o coração acelerar quando a bateria toca, sabe como é.

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Triângulo amoroso do carnaval

Antes de pularem Carnaval em bailes com confetes e serpentinas, estes três personagens eram protagonistas de tramas teatrais com forte apelo social.

Eles surgiram e ganham destaque na Commédia dell art, gênero de teatro italiano nascido no século XVI. O triângulo amoroso dos três serviçais servia de pano de fundo para ridicularizar pelas ruas os poderosos da época e trazer alegria a população mais inculta da época.

Pierrô: ou Pedrolino, mas na França do século XIX foi batizado de Pierrot e foi com este nome que ficou conhecido o mais pobre dos serviçais, que de tão paupérrimo, vestia roupas de sacos de farinha, tinha o rosto branco e não usava máscara. Depressivo, vivia suspirando pelo amor de Colombina, era sempre o alvo das piadas em cena, não obstante, sua caracterização inspirou palhaços de circo.

Arlequim: era o serviçal preguiçoso e insolente, além de ter um espírito de porco, tentava convencer a todos de sua ingenuidade e estupidez. Debochado, infernizava a vida dos demais personagens pregando nestas peças, depois usava sua esperteza nata para escapar das confusões. Sua roupa de Losangos coloridos eram uma de suas marcas.

Colombina: tão bela e refinada quanto sua ama, filha do Patrão Pantaleão, ela era o pivô do triângulo amoroso, de um lado o enamorado Pierrô, e de outro, o malandro Arlequim que foi conquistado com a dança e canto da graciosa serviçal. Ela namorava o inocente Pierrô, e o traia com o esperto Arlequim.

Todos sabem que o Carnaval não nasceu no Brasil, mas foi aqui que ele encontrou condições para exaltar-se como festa popular e os três personagens do Carnaval dos primórdios tem espaço garantido em qualquer baile.


Marcha de 1935
Composição: Noel Rosa e Heitor dos Prazeres

Um pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma colombina
Acabou chorando, acabou chorando
Um pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma colombina
Acabou chorando, acabou chorando
A colombina entrou num botequim
Bebeu, bebeu, saiu assim, assim
Dizendo: pierrô cacete
Vai tomar sorvete com o arlequim
Um grande amor tem sempre um triste fim
Com o pierrô aconteceu assim
Levando esse grande chute
Foi tomar vermute com amendoim


terça-feira, fevereiro 15, 2011

O cabeção do negro

Desde pequeno não havia um dia de carnaval que não íamos brincar no centro da cidade. Praticamente a família toda ia para ver as alegorias e brincar o carnaval na Avenida Rio Branco. Se as escolas de samba do grupo especial tinham a passarela principal para o desfile, era na Rio Branco que as pequenas escolas desfilavam. E para aqueles que não podiam assistir aos desfiles principais, ali tínhamos a chance de ver as escolas bem de perto. E não só assistir, mas tocar nas alegorias que eram abandonadas no final do desfile, na Cinelândia. Era o momento que todos tinham a chance de subir nas alegorias e tocar nas esculturas. Uma diversão para as crianças e para os adultos peças para serem saqueadas.

Foi o nosso caso, mas não por culpa dos meus pais e sim pela minha insistência. Apoderei-me de uma alegoria que havia esculturas de negros e uma estava praticamente solta, só precisando de mais um empurrãozinho para desprender da base totalmente. Sem imaginar como carregar aquela enorme cabeça de negro, meu pai fez a nossa vontade e a trouxemos para casa.

Meu pai tinha um opala nessa época e colocamos a cabeça no porta malas, mesmo tendo que amassar o nariz do negro. Foi uma alegria imensa essa volta para casa. Como se tivéssemos um objeto valiosíssimo. Não importa, para mim realmente era uma peça de grande valor e o melhor de tudo é que era nosso.

Na verdade esse cabeção veio a ser de todos e fez a festa de vários carnavais no quintal de Vaz Lobo, principalmente no de 1976. Gosto muito dessa foto, mas há um mascarado nela que não sei mesmo de quem se trata. Será que alguém saberia me responder?